Tropical Trout in Brazil

Truta Da Floresta Tropical
A Floresta Tropical Desempenha o seu papel
Luiz Felipe Daudt de Oliveira

Na estação das chuvas, nuvens grandes e densas acumulam-se nos contrafortes da serra. Quando a tempestade de verão se forma e o vento fustiga a floresta, as primeiras gotas que caem anunciam índices de pluviosidade de padrões tropicais.

Logo o vento amaina e a chuva desce forte. No espaço de uma hora ela também arrefece. No chão, pequenos filetes de água descem pelas encostas e grotões, juntando-se aqui e ali, encorpando-se, até formarem uma teia complexa, diminuta e peculiar, que abastece os córregos, rios e os lençóis de água, num ritual milenar. A vida na floresta ainda silencia, mas no Mambucaba e seus tributários a dinâmica hidráulica foi alterada num nível muitas vezes acima do normal e faz um barulho ensurdecedor.

O Paca desliza sereno numa floresta da Bocaina.
FOTO: do AutorO Paca 

Demora, até que as águas baixem e o rio ganhe alguma transparência. Na floresta, alguns animais ainda sacodem de seus corpos a água em excesso, enquanto numa árvore próxima um gavião espreita. Uma truta reboa no rio, engolindo a sua primeira comida da tarde. A incrível truta arco-íris da floresta tropical.

A Chegada da Truta

Os estudos sistemáticos sobre a biologia dos peixes brasileiros foram iniciados pelo biólogo Rudolph Von Ihering, na piracema de 1927-1928, Cachoeira das Emas, rio Mogi- Guaçú, no estado de São Paulo.

Em 1938, Ihering foi convidado para dirigir o Serviço Nacional de Piscicultura do Ministério de Agricultura, aclimatando peixes nativos, entre eles o tucunaré ( peacock bass ), e os estrangeiros black bass, blue gill e a tilápia africana. O blue gill , acabou por não se adaptar e o black convive até hoje com a tilápia.

Ihering inquietava-se com os rios das regiões montanhosas ao Sul do Brasil, onde águas cristalinas e frias, ricas em oxigênio dissolvido, larvas e insetos - além de possuírem, todas as características físico - químicas adequadas - eram pobres em peixes. Julgou que as espécies existentes nas baixadas, não conseguiriam evoluir até as cabeceiras, em virtude do acentuado gradiente de declividade, nem suportariam as baixas temperaturas da água. Dessa inquietação, nasceria o embrião para a idéia de buscar o peixe adequado muito longe dali.

As primeiras notícias sobre a introdução da truta arco-íris no Brasil, datam de 1949, quando o Ministério da Agricultura, através do engenheiro agrônomo Ascanio de Faria, importou ovos embrionados da Dinamarca colocando-os nas nascentes dos altiplanos da Serra da Bocaina, no estado de São Paulo, quase divisa com o Rio de Janeiro; que a literatura especializada na pesca esportiva parece ter esquecido de mencionar.

A causa do sucesso pela aclimatação da truta num país tropical, são as altitudes elevadas, que possibilitam um sistema tropical singular, favorável ao desenvolvimento do peixe.

Tarde de Entretenimento, Noite de Magia

Já faz muito tempo que a chuva passou. Sentado na saliência de um barranco próximo da margem, torço para que a água clareie de vez. A natureza ao redor do rio Mambucaba proporciona um ambiente de enlevo e encantamento; diante do fascínio da região e a expectativa da pescaria, é impossível ser indiferente ou mesmo não se emocionar.

E quando se tem apenas quarenta minutos antes do crepúsculo, o jeito é subir na direção de uma cachoeira onde o rio se alarga, os espaços sugerem amplidão e talvez tragam boas surpresas. Imediatamente atrás da cachoeira, a perspectiva se confirma. O rio abre-se generoso, fazendo uma grande curva, e se desmembra em compartimentos que formam rápidos, recantos tranquilos entre a vegetação, um poço largo, a correnteza principal e grandes pedras que afloram. Temos de nos manter furtivos, pois reboam trutas em praticamente todos os lugares.

O espaço aberto permite movimentos amplos para lançamentos e o spinner - a melhor isca para essa região - voa em diagonal ao longo da largura do rio, até cair do outro lado, num pequeno espaço entre a relva,. Quero também que ele atravesse o poço e a correnteza principal, para depois alcançar uma parte funda e pedregosa na margem do meu lado. A isca já chegava muito perto, quando uma grande arco íris atacou de forma inesperada, mas o lapso de tempo entre a investida e o recolhimento, não permitiu que ela a abocanhasse.

As trutas das cabeceiras dos rios são muito famintas mas extremamente ariscas, e meus movimentos foram percebidos; do lado da margem em que estou, não esperaria mais por nenhuma visita.

Atiro o spinner no mesmo lugar anterior, entre a relva. Mal começou a descer no poço, a linha estanca, o caniço enverga e um peixe corre com o ímpeto de um excelente exemplar. Puxo uma truta de uma libra, que é um bom peso, para uma espécie que habita as cabeceiras dos rios. Com sorte, pode-se capturar arco-íris de até três libras, mas são muito astutas e costumam se esconder em lugares mais inacessíveis. 

O final da tarde me contemplou com mais alguns peixes que devolvi ao rio. Quando a noite chega, a luminosidade da lua se insinua por entre a porta aberta e as janelas da casa rústica de madeira e barro. Do lado de fora seu brilho revela os contornos da serra e parecem cobrir a floresta com um véu prateado. No rio, feixes de luz reverberam em suas águas como cristais cintilantes.

Pesca Difícil

As manhãs de verão na Bocaina podem ser amenas e até mesmo frias , principalmente quando chove durante a noite e sobretudo na madrugada. A água do rio é sempre fria, por isso, trouxe por precaução calças US Diver dos tempos de caça submarina e grandes garoupas.

Iniciando a pescaria rio abaixo é imprescindível o uso de um cajado para apoio, pois a mata nas margens será tão densa que é impossível evitar a caminhada sobre o rio turbulento e pedregoso. Logo a água irá cobrir as pernas e em alguns lugares, o peito, e na medida em que avançamos o Mambucaba estreita-se e entra literalmente dentro da floresta.

Apesar do ambiente parecer hostil, lindas pedras acizentadas cobertas por musgos e liquens, orquídeas selvagens, e outros inúmeros adornos naturais, são alguns arranjos singelos, que a natureza vai elaborando ao longo do percurso, numa dedicada obra de jardinagem. Contudo, não nos deixemos enamorar, toda concentração é necessária para evitar contratempos e possamos explorar o maior número de pontos adequados possíveis para os lançamentos. Os deslocamentos de um lugar para outro são complicados e os lançamentos não serão aprazíveis, tornando a pescaria difícil. A única razão para todo esse sacrifício são as grandes e astutas arco-íris escondidas nos sites mais intrincados e recônditos.

A mata une as margens projetando para a água uma grande quantidade de galhos, lianas e cipós, formando um túnel de vegetação, onde um único ramo pode ser suficiente para impedir que a isca artificial se desloque até o alvo pretendido. Na maioria das vezes, esses obstáculos vegetais que avançam sobre o rio se interpõem entre o pescador e um bom site, exigindo muita paciência e perícia nos lançamentos para tentar contorná-los.

O caniço deve ter no máximo 5 pés e ser flexível, o que facilita a saída da linha nos lançamentos sempre curtos e para que a carretilha depois seja reabastecida sem embaraços. Os arremessos são feitos mais com o pulso do que com o braço, pois qualquer movimento maior por trás de nossas costas dificulta a visão e poderá fazer com que a isca artificial se agarre a algum tipo de vegetação impedindo os lançamentos no seu inicio. Mesmo que eventualmente um movimento completo possa parecer fácil, não devemos cair nessa tentação; com certeza a isca vai se prender num galho de árvore e dificilmente conseguiremos tirá-la. Qualquer tentativa nesse sentido provocará uma agitação estranha e imprópria ao local, sendo logo identificada por uma truta naturalmente arredia. Mais tarde, o brilho da isca abandonada certamente atrairá algum macaco curioso.

Todas as dificuldades reunidas nesse campo de provas tropical são imediatamente esquecidas quando, com a linha fina quase encostada na saliência de uma parede rochosa, recolho o spinner e uma grande arco-íris irrompe da pedra engolindo-o e puxando forte. A catraca grita e a truta tenta levar toda a linha da carretilha rio abaixo, mas felizmente consigo me aproximar, evitando as esperadas topadas, quedas e escorregões, até apanhar um magnífico exemplar, que pesa entre duas e três libras.

Descendo mais adiante, na confluência do Rio dos Veados com o Mambucaba, os espaços voltam a ser amplos e vislumbra-se o horizonte em frente. Ali perto, o Rio dos Veados despenca de uma altura equivalente a um prédio de quatro andares formando uma linda queda de água. As trutas estão ativas porém pequenas, então volto para almoçar.

Algumas Informações

Os estados do Rio de Janeiro e São Paulo encostam-se na Serra da Bocaina. Aproximadamente a 130 km partindo do primeiro, chega-se na pequena cidade histórica de Bananal, em São Paulo, remanescente de uma época em que a cultura do café trazia riqueza e prosperidade. Subindo mais 25km por uma estrada íngreme, tortuosa e pedregosa, até uma altitude de 1500 metros, alcança-se o rio Paca e uma bela cachoeira, no Rio de Janeiro. Embora ali a região seja mais desmatada e frequentada, isso não chega a comprometer o seu encanto natural. Encontram-se boas condições de hospedagem no Bocaina Parque Hotel, onde está situada a maior piscicultura de trutas da América Latina, além de um bonito açude e uma grande represa, onde se pode pescar no sistema de pesque-pague - já foram capturados exemplares com mais de 10 libras.

O outrora piscoso rio Paca já não é mais produtivo, mas com um pouco de sorte, espírito aventureiro e um informante local podem-se realizar boas pescarias em outros rios mais próximos.

Para os mais precavidos, existe uma empresa que pode ser acessada pela INTERNET, chamada Fishing in Rio, cujo dono é um especialista não só nos melhores sites da Bocaina, como também promove grandes pescarias de água doce e salgada no Rio de Janeiro e outros estados do Brasil. Aqueles que tiverem disposição para uma longa caminhada até a Pedra do Frade, terão a oportunidade de assistir a Mata Atlântica escorregar pela serra abaixo encontrando-se com o mar, na linda baía de Angra dos Reis, compondo uma das paisagens mais bonitas do país.

Por São José dos Barreiros, a 270 km do Rio de Janeiro, vale a pena viajar mais algumas horas numa estrada ruim, até a nascente do rio dos Veados. O hotel é excelente, com acomodações refinadas no estilo rústico dos lodges europeus, situado numa belíssima área do Parque Nacional da Serra da Bocaina. Todos os rios dessa vertente são paulistas, com exceção feita para o Mambucaba que corta ambos os estados.

Durante o verão, costumam ocorrer fortes trombas de água que muitas vezes inviabilizam a pesca nos rios. Nos lugares mais ermos os carros correm o risco de atolar nas estradas de terra, mesmo com o uso de correntes. Embora as trutas sejam muito ativas no verão, a melhor época para a pesca é entre os meses de Maio e princípio de Setembro, correspondentes às estações do outono, inverno e começo da primavera, quando as chuvas são raras e fracas. No começo da primavera há uma grande ocorrência de formigas voadoras que caem nos rios e são devoradas pelos peixes. Muitas trutas são encontradas mortas boiando e presume-se que sejam envenenados pelo ácido fórmico, ou mordidas pelas formigas, que engolem ainda vivas.

Para alcançar a cabeceira do Mambucaba, saí do rio Paca e em menos de uma hora de viagem chego à um pequeno lugarejo chamado Onça, onde pode-se guardar o carro com um morador e conseguir alguns cavalos. O acesso é feito numa trilha muito estreita, que desce por um desfiladeiro íngreme, até que o caminho melhora quando, finalmente, a floresta aparece ao longe e os rios Gavião e Sete Espetos unem-se para formar o Mambucaba. Esse trajeto demora três horas, aproximadamente, não havendo mais do que três casas rústicas ao longo do percurso. Devemos levar desde a comida, até a caixa de primeiros socorros, pois as condições em que vivem nossos prováveis hospedeiros são precárias, típicas de gente pobre do interior.

Epílogo

À tarde, caminho por uma trilha que passa acima da casa e sigo quase uma milha, até o rio. Embora em alguns pontos ainda seja necessário o uso do cajado, podemos nos mover muito mais à vontade. Não há um só lançamento em que os peixes não ataquem, e tudo acontece de modo tão fulminante que; dez, vinte, trinta... mais de quarenta trutas aqui é normal, pescando apenas na parte da tarde. Incrível! Não fosse pelos ovos embrionados escandinavos e diria que todas as trutas da Dinamarca vieram para cá.

Os tamanhos variam entre pequenas, médias, até as maiores que pesam perto de uma libra. Solto a maioria, já muito satisfeito com o troféu da manhã, mas impressionado com a fartura desse lugar.

No caminho de volta, já é quase noite. Na medida em que vou andando, divago, displicente, remontando pescarias e antigas caçadas. Lembro que havia encontrado rastros de porcos do mato e escutado alguns macucos* piarem num grotão da floresta. Amanhã quero dar uma espiada, embora não carregue mais armas; gosto de encontrá-los e deixa-los livres. Deveria ter aprendido isso há muito mais tempo. Assim como o rio, a floresta aqui é muito preservada e pródiga em vida selvagem, mas só com muita experiência consegue-se avistar os grandes roedores, macacos, porcos do mato e os pássaros maiores.

A noite chega bem fresca e não há nuvens no céu. Quando a lua desponta novamente, seu brilho revela uma bruma suave que parece mergulhar gentilmente no leito do rio. Aqui, a pescaria não é apenas um ato mecânico de lançar e recolher a linha. A floresta tropical envolve uma fascinante e complexa união entre o mito e a realidade. O rio e, sobretudo, a floresta tropical compõem o universo novo desse nobre peixe. Parece que a truta gostou ... eu também.

*Macuco: espécie grande de ave, típica das florestas tropicais brasileiras, encontrada apenas nos lugares muito preservados. Possui hábitos diurnos e vive no chão, voando curto quando assustada, ou para alcançar uma árvore na hora de dormir. É extremamente arisca e considerada em vias de extinção. No mês de Setembro, inicia o ritual do acasalamento emitindo um chamado que ecoa através da floresta como um lamento, dos mais bonitos, jamais ouvidos pelo ser humano.