Os Guerreiros Barbuos Da Amazonia

Texto e fotos por Andy Hahn

Meu amigo Zeca arremessou bem alto e a chumbada caiu, fazendo bastante barulho, no Rio Araguaia. A isca foi quicando no fundo até parar ao lado das galhadas na margem, Zeca esticou a linha e, sem tirar o olho do ponto onde a linha penetrou as águas cor de café-com-leite, comentou: "Este rio é uma caixa de surpresas. Nunca se sabe o que você vai fisgar."

Armau o abotondo

FOTO POR ANDY HAHN

O Rio Araguaia percorre a região centro-norte do Brasil, demarcando as fronteiras dos estados de Mato Grosso, Tocantins, Goiás e Pará. Sua peregrinação para o norte termina na confluência com o Rio Tocantins, e este acaba desembocando no Amazonas. Esta região é marcada pelos ciclos anuais das enchentes e vazantes; pode-se pescar durante qualquer época, mas a vazante é melhor para o pescador. A enchente inunda a floresta, espalhando os peixes pelo mato. Quando as águas baixam, os peixes voltam ao leito do rio e são localizados com mais facilidade nos poços e nas saídas de corixos.

Nossa pescaria tinha sido cuidadosamente planejada para coincidir com a lua cheia de maio. Normalmente, o Araguaia começa a baixar em abril. Pretendíamos pescar enquanto o rio ainda estava baixando. Nosso plano foi por rio abaixo quando, na chegada, descobrimos que o rio tinha começado a baixar, mas estava enchendo de novo, devido às chuvas fortes no sul. Não podíamos desistir agora. Nosso grupo de 16 pescadores tinha fretado um ônibus para a viagem saindo do Rio de Janeiro (32 horas de estrada) e todos tinham programado férias e outras detalhes para poder participar da pescaria. O jeito era insistir, botar as iscas na água e torcer pelo melhor.

O alvo principal da pescaria era o cachara (Pseudoplatystoma fasciatum). O povo ribeirinho do Araguaia chama este peixe de pintado, criando uma certa confusão, porque o verdadeiro pintado é outra espécie (Pseudoplatystoma coruscans). As duas espécies são parecidas em características físicas e em comportamento. Cabeçona alongada e achatada, dorso escuro e flancos embranquecidos. Os dois grandes bagres são diferenciados pelas marcas no dorso: o pintado é coberto de pintas pretas e o cachara exibe listras, como as de um tigre. De acordo com a IGFA, o recorde mundial de pintado foi batido em Mato Grosso, um peixe de 19,95 quilos. O cachara recordista, de 16,55 quilos, foi capturado em Guyana. Porém, estes peixes podem alcançar proporções monstruosas. Eu já vi fotos de cacharas de quase dois metros, pesando uns 50 quilos, fisgados em espinhéis. Infelizmente, a pesca predatória é um problema, mesmo em face dos tamanhos mínimos estabelicidos pelo IBAMA. Hoje em dia, um pintado de 15 quilos é considerado bem grande.

Estes peixes são predadores vorazes que ficam de espreita nas galhadas e no leito do rio, perto das bocas dos corixos. O pintado é mais comum no Pantanal e seu primo listrado predomina na Bacia Amazônica, mas há uma grande área em que os dois existem lado a lado. O cachara era nosso alvo porque este é o mais comum peixe-de-couro de grande porte no Araguaia, sem falar da sua carne saborosa.

A técnica era simples: amarrar o barco numa árvore e lançar as iscas (peixinhos vivos, os tais chamados "iscas brancas") perto das galhadas submersas. Material pesado era empregado devido à necessidade de tirar os peixes das estruturas submersas. Usamos varas curtas e grossas, linha de 25 a 30 libras de resistência, anzol 7/0 protegido por um empate de aço e chumbadas oliva de vários tamanhos.

Como falei, o nosso alvo era o cachara, mas ninguém estava muito preocupado com a pontaria. Marcamos pontos mesmo quando "erramos" o alvo. Pegamos muitos mandubé, um pequeno bagre sem barba. O mandubé raramente ultrapassa os 40 cm e não é bom de briga. Sua cabeça larga e a coloração marrom amarelado disfarçam a carne deliciosa. No Pantanal este mesmo peixe é chamado palmito, devido à carne branca e macia.

Outra espécie comum no Araguaia é o primo miúdo do cachara, que carrega o nome científico de Sorubim lima. Este bagrinho atinge un 35 cm de comprimento e pode ser visto em cardumes, caçando peixinhos e até pulando para fora d'água. Sua cabeça possui o perfil típico da família surubim e seu nome em português se refere à boca estranha -- bico-de-pato. A parte superior da mandíbula se estende além da parte inferior. O peixe é chamado jurupencem em tupi-guarani, que quer dizer "boca rachada".

Como em qualquer outro lugar, a pesca de peixe-de-couro no Rio Araguaia é um jogo de paciência. Depois de amarrar o barco, arremessamos as iscas e deixamos a correnteza levá-las para perto das galhadas. Via de regra a espera não era demorada. As águas quentes mantêm os metabolismos dos peixes em rítmo acelerado, isto é, eles estão sempre com vontade de comer. Outro ponto em nosso favor era a velha lei da selva. O rio é tão piscoso que o peixe não pode hesitar diante de uma refeição fácil - se bobear, a concorrência vai chegar primeiro.

O pescador observador logo aprenderá a identificar sua presa mediante o código Morse transmitido pela linha de pesca. Uma série de toques curtos e bruscos não é boa notícia -- se tiver sorte, vai fisgar uma das piranhas que está beliscando. As maiores ultrapassam meio-quilo e brigam bem, virando o corpo largo para a correnteza e nadando em círculos fechados. Piranhas pequenas são ótimas iscas para os bagres grandes, mas tome cuidado ao colocá-las no anzol!

O mandubé e o bico-de-pato pegam de leve na isca e fazem corridas curtas, mas o tamanho diminuto limita a capacidade de lutar. O pescador experiente em surubim se prepara quando sente duas ou três puxadas lentas, porém firmes, na linha. Logo em seguida, o peixe vai levar a isca com vontade, e eis a hora de dar a fisgada - com força. Muita gente diz que o cachara "mama" a isca antes de pegar, mas não concordo com essa teoria. A concorrência subaquática é acirrada, e o peixe que demora antes de abocanhar a isca vai perdê-la para o vizinho mais rápido. Eu diria que o cachara come a isca e, antes de se mandar, dá uma conferida no local para ver se não tem mais comida. Por isso se sente umas puxadinhas antes de o peixe fazer a corrida.

Uma vez fisgado, é imprescindível manter a cabeça do cachara virada para cima, pressionando o peixe e trabalhando nos limites do seu equipamento. O fundo do rio está repleto de troncos caídos e se o peixe entrar nas galhadas, vai dar muito trabalho para tirá-lo. Eu sempre uso um arranque de linha 0,60, ou faço um metro de linha dupla antes de atar o empate de aço, por dois motivos: para proteger contra as "raspadinhas" da linha nos galhos, e para dar uma margem de segurança em relação aos piloteiros que têm o mau hábito de segurar a linha antes de embicheirar o peixe.

Os cacharas andam em cardumes, então era comum pegar vários em cada poço. Quando as fisgadas diminuíam, mudávamos para outro ponto ou curtíamos a natureza amazônica por um tempinho. Avistamos araras, tucanos, colheireiros e outros pássaros sobrevoando o rio. O mato fechado escondia os bichos, mas de vez em quando escutávamos os gritos dos macacos.

Eu também soltei uns gritos, mas estes foram provocados pela dor. Peguei um bico-de-pato e educadamente recusei a oferta do nosso piloteiro para remover o anzol, mesmo depois de ele me avisar dos ferrões. Fui criado pescando bagre no Rio Monongahela, nos EUA, e já sabia como lidar com estes peixes sem levar espetadas. Quando passei a mão no danado, ele inclinou os ferrões laterais para trás e começou a sambar. Os bagres americanos nunca fizeram isso! Logo senti um ferrão penetrar o dedo, perto da junta da mão.

Amarau o Abotoado

FOTO POR ANDY HAHN

O ferrão do bico-de-pato injeta um veneno e eu imediatamente tive uma sensação de queimadura espalhando pela mão. Cortamos o ferrão para facilitar sua remoção - uma operação dolorosa que requereu o uso de um alicate para arrancar o objeto ofensivo. Lavei o ferimento com água mineral e coloquei gelo no dedo e na testa, pois já estava ficando meio tonto. Os amigos disseram que fiquei verde enquanto deitei no fundo do barco, massageando a mão. A dor desceu até o pulso e persistiu por pelo menos uma hora. O desconforto foi agravado pela idéia de que eu não teria condição de pescar durante os dois dias restantes da viagem, pois não era capaz de segurar a vara. Naquela hora, nem podia levantar, pô!

Ignorando meus protestos, o piloteiro começou a me levar de volta ao hotel. Já tínhamos feito o máximo possível, eu não estava em perigo de vida e não adiantaria nada voltar para o hotel. Além do mais, ainda restava bastante tempo para pescar de tarde, e eu não quis estragar a pescaria dos companheiros. Depois de correr uns vinte minutos, o piloteiro cortou o motor e embicou a proa para a margem do rio. Lá estava um outro barco, cujos ocupantes estavam gesticulando para nós. Tinham achado um cardume de cachara justamente na hora em que tinham acabadas as iscas. Passamos uma dúzia de iscas para eles, e encostamos alguns metros rio acima, para poder participar da festa. Meus dois amigos fisgaram peixes em uma questão de minutos. Sarei na hora. A dor foi diminuindo com cada cachara que fisguei. Não vou esquecer nunca o que aprendi - agora só seguro os bagres com alicate.

Como Zeca falou, o Rio Araguaia está cheio de surpresas, às vezes grandes. Vários pescadores do nosso grupo se meterem em encrencas ao pegarem pirararas (Phractocephalus hemioliopterus) que abocanharam as iscas e partiram para o meio do rio. Estes brutos ficam imensos - o recorde mundial é 44,2 quilos - e são os mais bonitos integrantes da turma dos bagres. O nome pirarara vem do tupi-guarani pira (peixe) e arara. A lenda diz que a espécie teve sua origem quando uma arara virou peixe. O dorso do peixe apresenta tons de marrom-chocolate, os flancos e o ventre são brancos e as nadadeiras são vermelhas.

Como um efeito colateral, as pirararas são pegas com freqüência quando se pesca cachara porque, apesar do tamanho avantajado, elas não recusam as iscas pequenas. Os pescadores que querem mesmo pegar estes grandões usam varas fortes, de fibra de vidro maciça, junto com carretilhas resistentes, linha 100 e anzóis 10/0. A isca predileta é o mandubé de 25 cm e a melhor hora é de noite, quando as piranhas não atrapalham. A pirarara recorre a vários truques para se livrar do anzol, ora fazendo corridas fortes e longas, ora dando cabeçadas lá no fundo. Muitos pescadores levam um susto ao pegar a primeira pirarara porque o peixe costuma emitir grunhidos altos quando chegar perto do barco.


Armau

FOTO POR ANDY HAHN

Bem, se a pirarara é o bagre mais bonito, o mais feio tem de ser o abotoado. Este bicho apresenta coloração que varia da cor-de-lama ao preto, e possui placas ósseas nas laterais. Sua pele grossa tem uma textura de veludo e seus ferrões são compridos. O pior é que o abotoado não oferece luta nenhuma depois de fisgado, permitindo-se ser rebocado que nem um saco plástico. Esta espécie está presente em todo o território brasileiro, fato evidenciado pelos diversos nomes regionais atribuídos a ele, tais como armau e cuiú-cuiú.

Durante o jantar da última noite no hotel, o cozinheiro me mostrou uma foto de um peixe capturado pelo seu cunhado. O bicho é conhecido como piraíba, e existem duas traduções desse nome. A primeira parte, pira, é, sem dúvida, a palavra indígina para peixe. A segunda parte pode ser aiva ("mau") ou pode ser iva ("mãe"). Pode-se optar pela precisão científica e usar o nome latin, Brachyplatystoma filamentosum, mas eu não sei traduzir estas palavras. Então o nome pode significar "peixe mau" ou "peixe mãe", no sentido de que este peixe é a mãe de todos os outros no rio. Uma piraíba pequena é chamada filhote, e neste caso, pequena quer dizer de menos de 50 quilos. O monstro na foto do cozinheiro beirava os 100 quilos.

Um monstro daquele tamanho não se entrega com facilidade, principalmente se fisgado no caniço, e poucas pessoas mentalmente estáveis quereriam tentar. Os ribeirinhos capturam piraíba com anzóis enormes, iscados com coração de boi e atados a garrafas com corda grossa. Os pescadores soltam as garrafas nos poços profundos e as acompanham em canoas, despejando sangue de boi na água para cevar o local. Há histórias de homens que saíram para pescar piraíba e nunca mais voltaram. Será que a tradução "peixe mau" é a mais correta?

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A Amazônia oferece a melhor pescaria de peixe-de-couro do planeta, em termos de qualidade e quantidade. O fato triste é de que a infrastrutura da região deixa a desejar. A maioria dos hotéis pesqueiros investiram na pesca de tucunaré, que atrai mais turistas e dá um retorno financeiro mais rápido. No Rio Araguaia ainda falta um hotel para atender bem o turista/pescador exigente. Em outras palavras, o custo é alto e o conforto é pouco. O serviço é de segunda e o acesso difícil (são seis horas de estrada até o aeroporto mais próximo), mas um novo aeroporto está sendo construído por perto. Os brasileiros estão acordando para o potencial da pesca esportiva, e vários hotéis estão aparecendo na região do Rio Araguaia agora. Vamos torcer para que eles sejam de boa qualidade, podendo atender melhor aos clientes. Até lá, os guerreiros barbudos da amazônia vão lutar somente com os pescadores aventureiros.