MARLIN BRANCO NO FLY: UMA AVENTURA EM VITóRIA BRANCO

por Andy Hahn

Quando se pensa em pesca de fly, as cenas que vêm à mente são de suavidade e delicadeza, da linha se desenrolando para frente e para trás nos arremessos medidos e rítmicos, como as linhas serenas de um poema. Por outro lado, o binômio pesca oceânica evoca imagens de lanchas potentes, equipamento pesadão e peixes violentos, todos envolvidos numa batalha em que vence a força bruta. Mas existe um meio-campo entre essas duas modalidades, em que a pesca oceânica é suavizada e a pesca de fly é robustecida, sem comprometer a "filosofia fundamental" de nenhuma das duas, assim criando uma pescaria esportiva que não tem igual.

"OLHA O BICO!" Nós três vimos o marlin branco ao mesmo tempo quando ele veio, com seu lombo para fora d'água, atrás da isca artificial no outrigger, uns 30 metros da popa da lancha Dolphin IV. Eu corri para recolher as outras duas iscas o mais rápido possível enquanto Charlie se preparou para arremessar o popper com sua vara de fly. Luiz Guilherme pegou o caniço do outrigger e começou a trazer a isca aos poucos, com o marlin logo atrás dela.

PA! PA! PA! Enraivecido, o peixe bateu na isca com o bico, querendo agarrá-la, mas Luiz não o deixou. Essa isca, que estava sem anzol, só servia para instigar o marlin. Recolhendo mais depressa agora, Luiz trouxe o peixe até a popa e, de repente, puxou a isca para dentro da lancha. Nesse mesmo instante Charlie arremessou na cara do marlin que, enfurecido, atacou assim que o popper caiu na água. Apontando a vara para o peixe, Charlie deu quatro puxadas na linha, firmes e fortes, e só levantou a vara quando o marlin virou e começou sua primeira corrida. "É um peixe respeitável, de mais ou menos 40 kg", avaliou Luiz, depois de ver o marlin saltar vários vezes.

Olhando para Charlie se apoiando na borda da lancha, com a vara de fly completamente envergada, eu não acreditava. Este foi o primeiro marlin branco que levantamos, e por um milagre, tudo aconteceu de acordo com os planos e conseguimos fisgá-lo. Falei para mim mesmo, "Não pode ser tão fácil assim."

Infelizmente, eu tinha razão: o peixe lutou durante 70 minutos antes de cuspir o anzol e, depois desse episódio, passamos quatro longos dias tentando fisgar outro marlin branco no fly - em vão. E não foi por falta de esforço nem por falta de oportunidade, pois vimos uma quantidade incrível de bicos nesses quatro dias, e muitos deles atacaram o fly.

Nosso pescador, Charlie Tombras, de Knoxville, Tennessee, EUA, não tinha marcado sua pescaria em Vitória por acaso. Depois de ler uma reportagem na revista norte-americana Saltwater Sportsman, ele ficou sabendo da quantidade e qualidade dos marlins brancos que rondam por lá. Como seu guia bilingüe eu senti a responsabilidade pesar nos meus ombros quando Charlie falou que vinha com a intenção explícita de bater um recorde mundial de marlin branco no fly. Charlie já detém três recordes mundiais de marlin no fly, homologados pela International Game Fish Association (IGFA): dois striped marlins capturados nas Ilhas Cocos, da Costa Rica, em diferentes classes de linha, e o maior marlin azul atlântico já capturado com equipamento de fly. Seu recorde de 94 kg foi estabelecido na Venezuela, em 20/05/94, com um tippet (líder) de 20 libras.

Então, como é que se pega marlin no fly? Nessa pescaria, Charlie usou uma vara de fly de ação 14, que se saiu muito bem nas brigas com marlins de até 30 kg. A isca era um popper, bem grande, muito parecido com as iscas artificiais usadas como teasers.

Com o material preparado, o objetivo é achar os bicos e atraí-los para perto da lancha para que o pescador possa apresentar a isca a eles. Iscas artificiais, às vezes chamadas "lulas artificiais", feitas de plástico e acrílico, do tipo usado na pesca convencional de marlin, são preparadas sem anzois. Usando varas e carretilhas com linha de 30 libras, essas iscas são corricadas na tentativa de levantar os peixes-de-bico. Preparadas assim, as iscas passam a ser chamadas de teasers, ou chamarizes, pois sua função é chamar a atenção dos marlins e induzí-los a atacar. Os teasers são corricados a uma distância de 30 ou 40 metros da popa da lancha, onde a tripulação pode vigiá-los. Quando um marlin surge atrás de um dos teasers, os outros são retirados da água imediatamente. Feito isso, uma pessoa começa a recolher o teaser, que agora virou alvo único do peixe enraivecido. O marlin bate na isca e tenta abocanhá-la, mas não consegue, e vem perseguindo-a até que, num sinal pré-estabelecido, o timoneiro coloca o motor em neutro, o teaser é arrancado para fora da água e o pescador arremessa o popper. Se tudo correr de acordo com o plano, o marlin, empolgado, ataca o popper. Como descobrimos, nem sempre as coisas acontecem assim.

Dia 03 de dezembro de 1995, saímos do Iate Clube do Espírito Santo na lancha Dolphin IV. O comandante Luiz Guilherme, os marinheiros Marcelo e Rubens, o pescador Charlie Tombras e eu. Fomos até "a beirada", mais ou menos 25 milhas fora da costa de Vitória, onde a profundidade do mar cai de 100 para 600 metros. É aqui que Vitória ganha a fama, merecida, de um dos melhores pesqueiros de marlin do mundo. Colocamos três teasers na água: um do lado bombordo e dois do lado estibordo. O outrigger do lado bombordo não foi baixado para não interferir com os arremessos do Charlie na hora H. Assumimos os postos, vigiamos os teasers e esperamos os marlins mostrarem a cara.

O primeiro apareceu às 10h55 e, como relatado no início dessa matéria, foi fisgado mas acabou escapando depois de 70 minutos na linha esticada. Uma pena. Aquele marlin branco tinha tamanho suficiente, até de sobra, para bater o recorde. Superamos a decepção e, logo depois, outro marlin sentiu a ponta do anzol mas se livrou no terceiro pulo para fora da água. Ninguém reclamou, pois este era pequeno, de uns 25 kg. Não demorou para outra oportunidade se apresentar. Um marlin surgiu para aterrorizar os teasers e se ferrou no fly. Colocou a linha nas costas e se tratou de abandonar a área numa série de saltos desesperados. TAC! O que foi? "Vi que era pequeno e não queria perder tempo brigando com ele," explicou Charlie. "Então, apertei o freio e arrebentei a linha de propósito." Quando esse homem sai em busca de um recorde mundial, a coisa é séria.

Nos dois dias e meio que seguiram, passamos por uma sessão de tortura interminável em que cada marlin que levantamos significava uma nova frustração. Dos 37 marlins brancos que atacaram os teasers, Charlie não conseguiu fisgar nenhum. Perdemos muitos devido aos nossos próprios erros, tais como: deixar a lancha fazer uma curva ligeira (assim o peixe não enxerga a isca na espuma da esteira); recolher o teaser rápido demais (o marlin não consegue pegá-lo e desiste da caça); embolar a linha do teaser na linha do fly; deixar o teaser na água quando o popper é arremessado (o marlin continua ligado no teaser e não ataca o popper). Talvez o mais engraçado - e menos esperado - foi quando um marlin perseguiu o teaser até a popa mas não atacou o popper e, logo em seguida, se mandou. Charlie deu uma risada: "Vocês fizeram tudo perfeito. Era para ferrar esse marlin. Mas eu me enrolei na hora de arremessar e não coloquei a isca perto do peixe."

Vou te contar, essa pescaria é uma coisa linda de ver. Quando o marlin ataca o teaser, ele se acende, principalmente as nadadeiras peitorais, que ganham um tom de azul claro, elétrico, facilmente visto pelo pescador. Ele vem dando golpes no teaser com seu bico, e às vezes consegue abocanhá-lo e carregá-lo, tomando linha da carretilha. Para quem está trabalhando o teaser, parece que o marlin se ferrou na isca, mesmo sem anzol. Se isto acontecer, o jeito é arrancar o teaser da boca do peixe, e aí o bicho fica "P da vida" e volta a atacar com mais raiva ainda. Instigado assim, o marlin chega na popa cheio de vontade, procurando alguma coisa, qualquer coisa, para matar. Eu juro, se jogar ponta de cigarro na água numa hora dessas, o marlin pula em cima!

Então o marlin, completamente aceso, fica ali, há poucos metros da praça de pesca, caçando uma vítima. "É como pescar num aquário," diz Luiz Guilherme, impressionado com o nitidez com que consegue ver o peixe. Isto porque, lembrem, o arremesso é feito com o motor desengatado e não há esteira na água para atrapalhar a vista. O problema é que nosso amigo narigudo é muito impaciente e não fica na área por muito tempo. Se não atacar o popper no primeiro ou no segundo arremesso, ele tem que ser instigado de novo, desta vez com uma isca especial: um farnangaio, sem anzol, costurado com fio dental para não rasgar quando o marlin pegar nele. Com vara e molinete, se arremessa o farnangaio e deixa o marlin chegar perto dele, sentindo seu cheiro gostoso, talvez até dando uma mordidinha. E aí, mais uma vez (coitado do peixe), tira a isca da boca dele, fazendo com que o marlin corra atrás. Quando o farnangaio passa perto do popper, se retira o farnangaio da água, e o marlin agarra o popper. Essa teoria é fácil de entender, mas várias complicações se apresentam na hora de colocá-la em prática. Se puxar o farnangaio rápido demais, o marlin desiste e vai embora. Se for muito lento, ou mesmo se não for lento, pois esses marlins agem com uma rapidez incrível quando estão com fome - é melhor dizer, se bobear e deixar o marlin engolir o farnangaio - ele perde interesse no popper e vai embora, sem sequer te agradecer pelo almoço grátis.

No dia 07 de dezembro vimos 12 marlins brancos atacarem o popper sem ser ferrados. Tinhamos combinado de pescar até 16h, então avisei Luiz Guilherme quando o relógio marcou as 15h58: "Faltam dois minutos."

"Vamos esticar só um pouco", ele falou, com um certo brilho no olho. "Estou com um pressentimento. Estamos passando perto do lugar onde já levantamos vários marlins hoje."

Lá de cima, no timão, Marcelo deu uma de vidente: "O peixe vai bater às 16h05," falou, com confiança.

Vitória é conhecida por seu mar bravo e vento forte, o "Nordestão" que sacode as embarcações, mas naquele dia o mar estava tranquilo, liso - uma coisa quase inédita. Então pensei, "Por que não aproveitar a bondade de São Pedro e ver se levantamos mais um marlin?" Já tinhamos visto 12 marlins naquele dia. Será que 13 vai dar sorte?

Como se fosse combinado, o marlin apareceu às 16h05. Luiz Guilherme pegou a vara do outrigger e tirou o teaser da boca do peixe. Eu e Rubens recolhemos os outros dois teasers e Charlie, já pronto, ficou esperando a momento certo para arremessar. Aí, o peixe sumiu.

"Cadê? .... Cadêle?"

"Não tô vendo. Sumiu."

Longos segundos de silêncio antes do marlin atacar o teaser de novo. "Ele taí! Traz ele devagar!"

Mais alguns segundos e Charlie fez um arremesso, rápido e curto. Luiz puxou o teaser para dentro da lancha e, ato contínuo, o marlin engoliu o popper. Ninguém falou nada enquanto o marlin tomava os primeiros metros de linha. Todos rezavam em silêncio para que o anzol segurasse quando o bicho deu quatro saltos, bem altos, arranhando o céu com seu bico. Luiz Guilherme, que já tinha subido para assumir o timão, engatou os motores e manobrou a lancha. Ia para frente para manter a linha esticada e dava ré para facilitar a recuperação da linha quando o marlin permitia. Forçando seu equipamento aos limites, Charlie manteve pressão no marlin, obrigando o peixe a brigar na superfície, pulando e se desgastando. Ele não queria deixar o peixe mergulhar - já tinha perdido um belo marlin assim, e não podia arriscar repetir aquela cena.

O marlin mostrava sinais de cansaço e Luiz Guilherme manobrava a Dolphin IV, se aproximando do peixe com cuidado. Mais alguns pulos de desespero e o peixe amansou, boiando ao lado da lancha. Marcel e eu passamos os bicheiros e trouxemos o narigudo para dentro. Tempo de luta: 14 minutos.

Foi só então que comemoramos o primeiro marlin branco capturado por Charlie Tombras no fly, e o primeiro peixe-de-bico no fly da Dolphin IV. Na volta vitoriosa para o Iate Clube do Espírito Santo, a nossa grande dúvida era se o marlin ultrapassava o atual recorde mundial de 33 kg. Nosso marlin não era imenso, mas chegava perto desse peso.

A balança do Iate Clube acusou exatamente 30 kg. "Poxa. Perdemos o recorde por muito pouco mesmo," lamentou Luiz Guilherme. Marcel, sempre otimista, sorriu, "Amanhã é outro dia. Agora que sabemos como fazer, vamos pegar uns cinco. Vamos bater o recorde com certeza."

São Pedro nos presenteou com mais um dia lindo, de mar calmo, em nosso último dia de pescaria, mas infelizmente, não fisgamos o Moby Dick. Porém, graças ao trabalho da equipe, agora com bastante prática, Charlie estabeleceu outro tipo de recorde: capturou, num único dia, quatro marlins brancos no fly, uma façanha jamais feita por outra pessoa. Os dois maiores pesavam 30 kg cada, então o recorde atual de 33 kg continua intacto. Mas essa marca não vai durar para sempre. Nessa viagem, sua primeira para o Brasil, Charlie Tombras ficou encantado com a pesca e com a cidade de Vitória. As águas e as pessoas brasileiras impressionaram tanto que Charlie já marcou sua volta para a próxima temporada, para que a caça aos recordes continue.

PARA QUEM QUER FAZER

A técnica de usar os teasers para levantar os peixes-de-bico e depois fisgá-los com outra isca é conhecida como bait and switch - que quer dizer, literalmente, "iscar e trocar". Para mim, uma tradução mais certa seria "instigar e trocar", já que a idéia é de instigar o peixe com o teaser e substituí-lo por outra isca na última hora. Chama-se o que quiser, é uma tática emocionante que dá bons resultados. Pode-se empregar essa técnica usando caniços e carretilhas comuns; não é obrigatório o uso de equipamento de fly. Bastante empregada na Costa Rica e outros lugares, permite que o pescador escolha o peixe que quer fisgar. Melhor ainda, permite que o pescador escolha o equipamento mais adequado para o peixe que ataca o teaser. Por exemplo, o pescador prepara três caniços: leve, médio e pesado. Se levantar um sailfish, pode optar pelo caniço leve. No caso de deparar com um marlin azul, a isca será lançada com o caniço pesado. Passam-se poucos segundos entre o momento em que o peixe aparece atrás do teaser e a hora de apresentar a isca, mas se manter a calma, há tempo de avaliar o tamanho do peixe e escolher o equipamento certo.

O sucesso da pescaria depende do trabalho coordenado da equipe, em que cada pessoa faz sua parte. A seguir, algumas dicas para melhorar seu desempenho na bait and switch:

  • O peixe tem dificuldade em enxergar o teaser na espuma da esteira. A esteira da lancha costuma ter duas "canaletas" de água limpa entre três "colunas" de espuma. É imprescindível trazer o peixe, seguindo o teaser, na água limpa. Caso contrário, ele perde o teaser de visto e desiste.
  • Comandantes experientes reagem de acordo com o atitude de cada bico. Se o peixe não estiver muito agressivo, diminuem a velocidade da lancha e deixam o peixe alcançar o teaser.
  • O teaser man, a pessoa que está recolhendo o teaser com o peixe atrás, deixa o marlin abocanhar o teaser uma vez ou outra, e o arranca da boca imediatamente. Assim, o peixe fica furioso e volta a atacar com mais vontade ainda.
  • Se os peixes-de-bico estão desistindo dos teasers sem atacá-los, pode ser que precisem de um atrativo adicional para provocar o bote. Prepare um farnangaio ou uma fatia de carne cortada da barriga de um dourado, sem anzol, e corrique este petisco no lugar do teaser. O cheiro e o sabor da carne são irresistíveis ao marlin, mas não se pode deixar o peixe comer tudo - uma mordida só, para aguçar o apetite.
  • Se não conseguir fisgar o bico na primeira tentativa, não desista! Ele ainda está na área. É possível levantar ele de novo se agir com rapidez. Coloque os teasers na água e volte a corricar no mesmo lugar, e fique atento, que é bem provável que outro ataque venha logo.
  • Algumas equipes desenvolveram uma técnica para agilizar esse "re-levantamento". Se o bico atacar um dos teasers do flat, o marinheiro deixa a linha do outrigger na água, sem recolher. Assim, se o peixe não for fisgado, é só engatar a lancha e andar para a frente, pois o teaser já está na água para chamar o peixe.

O POPPER

a pesca de É claro que, na pesca de marlin, não se usa uma pequena mosca seca adequada para truta. Por oupois o tro lado, se usar um anzol grande demais, não se consegue uma boa fisgada, equipamento leve não permite fortes ferradas.

A isca usada por Charlie era uma tube fly - "mosca de tubo". A isca ganhou este nome porque, ao contrário das outras moscas, não é atado no próprio anzol. A cabeça do popper e os penachos são fixadas num pedaço de tubo de plástico igual à mangueirinha usada nos filtros de água nas cozinhas brasileiras. O shock leader, com dois anzois número 3/0, passa por dentro do tubo e uma missanga segura tudo no lugar. Na verdade, este popper parece com as lulas artificiais usadas na pesca oceânica.

O popper é grande e funciona como um contra-peso que pode facilitar a saída do anzol quando o marlin está pulando e sacudindo a cabeça. Uma vantagem do tube fly é que a cabeça do popper sobe na linha durante a luta, enquanto os anzóis ficam na boca do peixe. Assim a fisgada é mais segura. Em compensação, quando o popper sobe na linha e está sendo arrastado na água, existe o perigo de um dourado ou outro peixe abocanhá-lo e cortar a linha. Apesar dessa possibilidade, a maioria dos pescadores que buscam bicos no fly preferem o tube fly.

EPÍLOGO

Ele cumpriu sua promessa. Charlie Tombras voltou na temporada seguinte e, no 01/12/96, pescando com Comandante Luiz Guilherme (desta vez a bordo da Molina), pegou um marlin branco de 37,64 kg para estabelecer um novo recorde para o tippet de 20 libras. Depois, usou um tippet de 12 libras e quase bateu outro recorde. Talvez no ano que vem...